Parasita e a desigualdade social como narrativa cinematográfica
Parasita

Parasita e a desigualdade social como narrativa cinematográfica

por gustavo.santos
janeiro 15, 2026
5 min de leitura

Lançado em 2019, Parasita não foi apenas mais um sucesso do cinema internacional. Dirigido por Bong Joon-ho, o filme se tornou um verdadeiro marco cultural ao conquistar a Palma de Ouro no Festival de Cannes e, posteriormente, fazer história ao vencer o Oscar de Melhor Filme, sendo o primeiro longa-metragem em língua não inglesa a alcançar esse feito. No entanto, o impacto de Parasita vai muito além dos prêmios: trata-se de uma obra que escancara a desigualdade social de forma crua, inteligente e profundamente simbólica.

Desde os primeiros minutos, o filme deixa claro que sua narrativa não será simples nem confortável. A proposta não é apenas contar uma história envolvente, mas provocar o espectador a refletir sobre estruturas sociais invisíveis que moldam o cotidiano de milhões de pessoas ao redor do mundo. A desigualdade, em Parasita, não é pano de fundo — é o próprio motor da narrativa.

Duas famílias, dois extremos sociais

A trama gira em torno de duas famílias completamente opostas. De um lado, os Kim, que vivem em um pequeno apartamento no subsolo, enfrentando dificuldades financeiras constantes, empregos temporários e uma rotina marcada pela instabilidade. Do outro, os Park, uma família rica que habita uma mansão moderna, cercada de conforto, tecnologia e segurança.

Esse contraste não se limita apenas às condições econômicas. Bong Joon-ho utiliza o espaço físico como um poderoso elemento narrativo. A casa dos Kim, localizada abaixo do nível da rua, simboliza a marginalização social, a invisibilidade e a sensação constante de estar à margem da sociedade. Já a casa dos Park, ampla, iluminada e elevada, representa o privilégio, o isolamento e a falsa sensação de controle sobre o mundo exterior.

A desigualdade é, portanto, visualmente explícita, tornando impossível ignorar o abismo que separa essas duas realidades.

A ascensão social construída sobre a mentira

O ponto de virada acontece quando Ki-woo, o filho mais velho dos Kim, consegue um emprego como professor particular da filha dos Park. A partir dessa oportunidade, a família passa a arquitetar um plano para se infiltrar completamente na vida dos ricos, ocupando funções estratégicas dentro da mansão.

Cada novo passo da família Kim rumo à estabilidade financeira é construído por meio de mentiras, falsificações e manipulações cuidadosamente planejadas. O espectador, paradoxalmente, se vê torcendo por eles, mesmo sabendo que suas ações são moralmente questionáveis.

Essa ambiguidade é uma das grandes forças do filme. Parasita não apresenta heróis nem vilões absolutos. Todos os personagens são produtos de um sistema desigual, onde a sobrevivência muitas vezes exige decisões éticas difíceis.

A desigualdade como estrutura invisível

Um dos aspectos mais impactantes do filme é a forma como ele retrata a desigualdade não como resultado de indivíduos mal-intencionados, mas como consequência de um sistema social profundamente enraizado. A família Park não é cruel ou deliberadamente opressora. Pelo contrário, eles se veem como pessoas educadas, gentis e até generosas.

No entanto, pequenos comentários, atitudes sutis e comportamentos cotidianos revelam preconceitos estruturais. A recorrente menção ao “cheiro” dos Kim funciona como um símbolo poderoso da exclusão social. Não se trata apenas de odor físico, mas de uma marca invisível que denuncia a origem social daqueles que tentam ultrapassar barreiras impostas pelo sistema.

Esse detalhe reforça a ideia de que, por mais que alguém tente se adaptar, a desigualdade insiste em se manifestar.

O suspense como crítica social

Bong Joon-ho mistura gêneros com extrema habilidade. O filme começa como uma comédia satírica, evolui para um suspense psicológico e culmina em uma tragédia intensa. Essa transição não é gratuita: ela reflete a instabilidade das relações entre classes sociais.

O suspense não serve apenas para prender a atenção do público, mas para intensificar a crítica social. Cada reviravolta expõe a fragilidade da convivência entre ricos e pobres quando interesses, frustrações e ressentimentos vêm à tona.

A violência presente no terceiro ato não surge de forma abrupta, mas como resultado acumulado de humilhações, desigualdades e silêncios impostos por uma estrutura social opressora.

A casa como metáfora central

A mansão dos Park funciona quase como um personagem do filme. Seu design moderno, minimalista e sofisticado transmite ordem e controle. No entanto, é no porão escondido que reside um dos maiores símbolos da narrativa.

A existência daquele espaço secreto revela que mesmo os ambientes mais luxuosos escondem camadas de exclusão. Pessoas que precisam permanecer invisíveis para que a ordem aparente seja mantida.

Esse elemento reforça a ideia central de Parasita: a desigualdade não desaparece, apenas é empurrada para fora do campo de visão dos privilegiados.

Um final sem ilusões

Diferente de muitas produções comerciais, Parasita se recusa a oferecer um final reconfortante. O sonho de ascensão social apresentado nos momentos finais é rapidamente desconstruído, deixando claro que mudanças individuais dificilmente rompem estruturas sociais tão profundas.

O desfecho amargo reforça a mensagem de que a desigualdade é cíclica e persistente, alimentada por um sistema que beneficia poucos enquanto marginaliza muitos.

Um retrato universal

Embora ambientado na Coreia do Sul, Parasita dialoga com realidades globais. A precarização do trabalho, a luta por oportunidades e o abismo entre classes são questões presentes em diversas sociedades.

Essa universalidade explica por que o filme tocou públicos tão diferentes ao redor do mundo. Parasita não acusa indivíduos específicos, mas convida a uma reflexão coletiva sobre como a desigualdade é construída, mantida e naturalizada.

Sobre gustavo.santos

Escritor apaixonado por séries e entretenimento.

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