Mad Men: poder, identidade e vazio na era de ouro da publicidade
Mad Men

Mad Men: poder, identidade e vazio na era de ouro da publicidade

por gustavo.santos
fevereiro 17, 2026
8 min de leitura

Quando Mad Men estreou em 2007 pelo canal AMC, poucos imaginavam que aquela série de ritmo contemplativo, ambientada nos anos 1960 e centrada no universo da publicidade, se tornaria uma das produções mais aclamadas da história da televisão. Criada por Matthew Weiner, a obra redefiniu o drama televisivo moderno ao combinar rigor estético, profundidade psicológica e uma crítica sofisticada ao sonho americano.

Ao longo de sete temporadas, exibidas entre 2007 e 2015, a série acompanhou a transformação cultural dos Estados Unidos por meio da agência Sterling Cooper — e principalmente pelos olhos de Don Draper, um dos protagonistas mais complexos da TV contemporânea.

Mas Mad Men nunca foi apenas sobre publicidade. Foi sobre identidade, masculinidade, ambição, gênero, poder, capitalismo, solidão e a constante reinvenção de si mesmo.

Don Draper: o homem que vende sonhos, mas não consegue viver o próprio

Interpretado magistralmente por Jon Hamm, Don Draper é diretor criativo da agência Sterling Cooper no início da série. Elegante, carismático e brilhante com palavras, ele é o tipo de homem que domina uma sala apenas com sua presença.

No entanto, por trás da imagem impecável existe um segredo central: Don Draper não é seu verdadeiro nome. Ele roubou a identidade de um colega morto durante a Guerra da Coreia e construiu toda sua vida sobre essa mentira.

Esse detalhe não é apenas um elemento dramático — é a chave para entender a série. Don é a personificação da ideia de reinvenção americana. Ele literalmente cria a si mesmo, assim como cria campanhas publicitárias que vendem felicidade, nostalgia e pertencimento.

Mas quanto mais ele tenta manter a imagem perfeita, mais sua vida pessoal se desintegra. Casamentos fracassados, alcoolismo, infidelidade e crises existenciais revelam um homem incapaz de sustentar emocionalmente o que vende profissionalmente.

A publicidade como espelho da sociedade

A agência Sterling Cooper (que depois passa por diversas reformulações e fusões ao longo da série) funciona como microcosmo da sociedade americana da década de 1960.

A publicidade naquele período estava se modernizando. A ascensão da televisão, o crescimento do consumo de massa e as mudanças culturais exigiam novas formas de comunicação. A série recria campanhas reais e se inspira em marcas históricas, mostrando como a indústria ajudou a moldar desejos e comportamentos.

Mas o foco não é apenas o glamour da Madison Avenue. É o machismo estrutural, o racismo institucionalizado e as barreiras impostas às mulheres e minorias dentro daquele ambiente corporativo.

Peggy Olson: a ascensão feminina em um mundo masculino

Se Don representa o homem branco privilegiado lutando contra seus próprios fantasmas, Peggy Olson representa a transformação social em curso.

Interpretada por Elisabeth Moss, Peggy começa a série como secretária ingênua e gradualmente se torna redatora publicitária, enfrentando preconceito, assédio e subestimação constante.

Sua trajetória é uma das mais poderosas da televisão moderna. Ela simboliza a segunda onda do feminismo que emergia nos anos 1960, questionando papéis tradicionais e exigindo espaço profissional.

Peggy não é retratada como heroína perfeita. Ela comete erros, sacrifica relações pessoais e enfrenta crises de identidade. Mas sua evolução é consistente e realista — e muitas vezes mais satisfatória do que a de Don.

Joan Holloway: poder, sexualidade e pragmatismo

Outra personagem fundamental é Joan Holloway, interpretada por Christina Hendricks. Inicialmente vista apenas como secretária-chefe e símbolo de sensualidade, Joan revela-se estrategista e profundamente inteligente.

Sua relação com o poder é diferente da de Peggy. Enquanto Peggy busca reconhecimento criativo, Joan entende as regras do jogo corporativo e as manipula a seu favor sempre que possível.

Um dos momentos mais controversos da série envolve uma decisão profissional que exige dela um sacrifício pessoal significativo, expondo as desigualdades brutais enfrentadas por mulheres naquele ambiente.

Joan é um retrato complexo da mulher que navega em um sistema injusto tentando extrair dele algum controle.

Betty Draper: o sonho suburbano em ruínas

Betty, primeira esposa de Don, interpretada por January Jones, representa o ideal feminino da década de 1950: bela, elegante e dedicada ao lar.

No entanto, conforme os anos 1960 avançam e as mudanças culturais se intensificam, Betty começa a sentir o vazio de sua vida doméstica. Seu casamento se deteriora, e sua frustração se manifesta de maneiras sutis e, às vezes, cruéis.

A personagem frequentemente foi incompreendida pelo público, mas sua construção é fundamental para a crítica da série ao ideal suburbano. Betty não é vilã — é produto de um sistema que limitou suas possibilidades.

Masculinidade tóxica antes do termo existir

Muito antes de o termo “masculinidade tóxica” se popularizar, Mad Men já explorava o tema.

Os homens da agência — Roger Sterling, Pete Campbell, Ken Cosgrove — vivem em um universo onde beber excessivamente, trair esposas e reprimir emoções são comportamentos normalizados.

Roger Sterling, interpretado por John Slattery, é o exemplo do executivo veterano espirituoso e cínico. Pete Campbell, vivido por Vincent Kartheiser, representa a ambição insegura da nova geração.

A série não romantiza esses comportamentos. Ela os expõe como parte de um sistema frágil que começa a ruir com as mudanças culturais da década.

Contexto histórico: os anos 60 como personagem

Um dos grandes méritos da série é integrar eventos históricos à narrativa sem torná-los artificiais.

A eleição de John F. Kennedy, seu assassinato, a Guerra do Vietnã, o movimento pelos direitos civis e a chegada do homem à Lua aparecem como pano de fundo que influencia diretamente os personagens.

Esses eventos não são tratados como simples referências, mas como forças que moldam comportamentos e perspectivas.

A década de 1960 foi um período de ruptura — e a série captura essa transição do conservadorismo dos anos 50 para a efervescência cultural do final da década.

Estética e direção de arte impecáveis

O cuidado com figurinos, cenários e fotografia é um dos aspectos mais elogiados da série.

Cada detalhe — dos ternos sob medida às roupas femininas que evoluem ao longo dos anos — ajuda a contar a história da transformação cultural.

A paleta de cores, os enquadramentos e o ritmo narrativo criam uma atmosfera contemplativa, quase melancólica.

Nada em Mad Men é apressado. Silêncios são tão importantes quanto diálogos. Muitas vezes, um olhar diz mais do que um discurso.

Prêmios e reconhecimento

Mad Men recebeu aclamação quase unânime da crítica especializada.

A série venceu o Emmy de Melhor Série Dramática por quatro anos consecutivos (2008–2011), tornando-se a primeira produção de canal a cabo básico a conquistar esse feito.

Jon Hamm também foi amplamente reconhecido por sua atuação como Don Draper, consolidando o personagem como um dos mais icônicos da televisão.

Além disso, a série ganhou diversos Globos de Ouro e prêmios do sindicato de atores e roteiristas.

O final e o enigma do sorriso

O episódio final, exibido em 2015, é deliberadamente ambíguo.

Após uma jornada de autodestruição e busca espiritual, Don termina em um retiro de meditação na Califórnia. A cena final sugere — mas não confirma explicitamente — que ele cria o icônico comercial da Coca-Cola de 1971.

A interpretação mais aceita é que Don transforma sua crise existencial em mais uma peça publicitária brilhante, reforçando o ciclo de vender felicidade enquanto luta internamente com seu vazio.

O final não oferece redenção clara, mas coerência temática.

Por que Mad Men é considerada uma das melhores séries da história

A grandeza de Mad Men não está em reviravoltas chocantes ou ação intensa. Está na profundidade emocional e na capacidade de capturar a condição humana.

A série questiona:
Quem somos quando ninguém está olhando?
Até que ponto podemos nos reinventar?
É possível fugir do passado?
O sucesso profissional compensa a ausência de conexão emocional?

Essas perguntas permanecem atuais.

Legado

Mesmo após seu encerramento, Mad Men continua sendo referência para dramas televisivos sofisticados.

Ela ajudou a consolidar a AMC como produtora de conteúdo de prestígio e abriu caminho para outras séries ambiciosas em canais a cabo.

Mais do que isso, deixou personagens que continuam sendo analisados, debatidos e reinterpretados.

Don Draper não é apenas um publicitário fictício — ele é um símbolo das contradições do sonho americano.

E talvez seja exatamente por isso que, mais de uma década após sua estreia, Mad Men continue relevante, inquietante e absolutamente indispensável para quem ama televisão de qualidade.

Sobre gustavo.santos

Escritor apaixonado por séries e entretenimento.

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